Querida Beatriz:
A rua da minha
infância era assim: por algum motivo desconhecido, quase não passava carros
nela, então era o lugar ideal para pular corda, brincar de amarelinha, de esconde- esconde e,
para os meninos, descer aquela ladeira num carrinho de rolimã sem breque, capacete
ou cinto de segurança. Isto nem era visto como uma demonstração de coragem: os
meninos faziam isto só por diversão mesmo.
Lembro-me da
Rita, do Roberto, da Rosiele, do Maurício e do meu irmão Ninho. Tinha as irmãs
mais velhas- super velhas com seus 14 anos de idade- a Naninha, irmã da Rosiele
e a irmã do Maurício, que até hoje não sei o nome, pois nunca se misturou com a
gente. Tinha os “café-com-leite”: minhas irmãzinhas Cris e Juli, e o
Maurinho, também irmão do Maurício.
E tinha as
mães, claro: a nossa mãe, que nunca deixava a gente ficar na rua até muito
tarde, mas deixava o suficiente para que pudéssemos dormir só depois das
histórias de assombração que partilhávamos nas rodinhas de conversa. Tinha a
mãe do Roberto e da Rita, que era tão brava que minha mãe tornava-se um anjo de candura perto dela. Ela chamava os filhos para jantar
berrando do portão, enquanto sacudia as mãos na forma que eles apanhariam se
não entrassem. Era incrível como ela conseguia estalar todos os dedos de uma
vez e como as unhas dela eram enormes! Até eu ficava morrendo de medo! Ela só
mudou o jeito de ser (ou fui eu que cresci, não sei) quando o marido dela
morreu, não sei de quê, mas lembro que os pés dele ficaram muito inchados antes.
Falando em morte, também teve um vizinho que morreu afogado e foi velado na
própria casa, que ficava na nossa rua: foi o primeira pessoa roxa que eu vi na
vida.
Ainda sobre os
pais: tinha a D. Maria, mãe do Maurício e do Maurinho, uma senhora bem tranqüila
e tinha a D. Bela, que na verdade era uma fera muito brava (ela era mãe da
Rosiele e da Naninha). O pai da Rosiele era o Seu Zezinho, que costumava lavar
o carro na rua só de cuecas, que na verdade era uma sunga, mas esta informação
para a criançada era totalmente irrelevante, a gente ria do mesmo jeito. Menos
a Rosiele, claro.
A rua hoje, porém, está bem diferente: não há lugar para crianças nela, só para os carros. E o pequeno córrego que havia por lá, virou um depósito de esgoto. Mas o pior: há duas semanas, antes que alguns policiais resolvessem, enfim, intervir, o “cantinho das árvores” havia virado moradia de “nóias” do crack.Os comerciantes do bairro tem lutado para que eles desapareçam, não trocando as moedas que eles recebem na rua por notas- o traficante não aceita moedas, parece que não tem tempo para ficar conferindo. Estes nóias andam pelas ruas como esqueletos mal vestidos, afobados e desesperados. Eles são outdoors móveis que mostram os efeitos das drogas. Seriam avisos bem persuasivos e educacionais de serem vistos, se eles não fossem seres humanos.
Fico pensando, com muita tristeza, como um pó branco,
uma ervinha verde de aparência inocente,
uma pedra suja e o excesso de bebida possam ter transformado aquela rua tão viva em
seus gritos infantis naquele asfalto poluído, morto, escuro e estranho. Hoje, a
alegria do local só é permitida dentro dos portões.
Fale a verdade
filha: que fim triste o desta rua, não?
Por hoje é só. Amo você,
minha linda:
de sua mãe

O mundo que vamos deixar pra nossos filhos está cada dia pior, mais feio, mais cruel e perigoso. Confesso que tenho muito medo do mundo que ela vai encontrar na adolescência, se tivesse jeito de protege-la pra sempre, tenho medo dela crescer. Mas o que realmente posso fazer é educar, ensinar, dar valores, muito amor e rezar!! É uma realidade muito trite, espero que a Emilly e a Beatriz conheçam uma realidade melhor daqui uns anos, embora ache que a tendencia é piorar...
ResponderExcluirSe elas se mantiverem longe das drogas e de tudo o vem com elas, confesso que já ficarei feliz...
ExcluirNem fala morro de medo!
ExcluirJosiane, bela crônica a sua, o caso do defunto também me fez lembrar certas coisas. Porém, não tenho a mínima idéia como vai estar nosso mundo, nossas vidas quando sua filhota for adulta. Tanta tecnologia, tanta solidão, tantos desencontros! Lembro que no meu tempo de criança éramos mais felizes, mesmo sem isso tudo que nos rodeia, mas talvez tenhamos de pagar um preço muito alto... Não sei se valerá.
ResponderExcluirBeijos, amiga.
Tais
O mais triste é saber que " crianças que já brincaram na rua" tem sido cada vez mais raro de ouvir.
ExcluirObrigada pela visita!! Bj
Ps: o caso do defunto, dá outra crônica, né? rsssss
ExcluirAlém da rua, eu brincava tb na "linha do trem"! :-)
ResponderExcluirMota, a gente teve sorte pra caramba na nossa infância, viu...
ResponderExcluireu ainda peguei um pouco isso de brincar na rua. minha rua é de terra batida, e tem um campo literalmente do outro lado, então isso se mantém aqui até hoje... eu gostava mais de ler, mas fico sentida em saber que futuras gerações não saberão o que é isso.
ResponderExcluirPois è: isto pq cortei do texto o que aconteceu com alguma daquelas crianças da rua qdo cresceram...
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