quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Para nunca mais perdê-la de vista

Filha, agora que você é uma “moça” e já fez um aninho, vou te contar um episódio que aconteceu na maternidade quando você nasceu. Eu nunca contei isto para ninguém, acho que por um pouco de vergonha de não ser aquela mãe tão perfeita que idealizamos quando grávidas.

Foi mais ou menos assim: fiquei em um quarto coletivo e não via problema nenhum nisto. Grande erro: primeiro, por não poder ficar com o seu pai o tempo todo ao meu lado- eu realmente precisava dele. O segundo motivo foi conviver com mães que não estavam no mesmo plano emocional que eu. A primeira, já era mãe de três filhos e encarava  tudo com aquela cara de gente acostumada com bebês desde o gênesis bíblico. A segunda mãe era de uma alegria tão imensa que irradiava corações dos olhos, ela havia feito não sei quantos tratamentos para engravidar e estava vivendo um sonho único e maravilhoso. E tinha eu, que por não sentir dor nenhuma de tanto remédio na veia, falava  pelos cotovelos, inconscientemente tentando disfarçar o terror interno que se apossara  de mim, afinal, depois que as  emoções do parto já tinham diminuído um pouco, eu começava a fazer-me uma importante pergunta: o que eu iria fazer agora com um bebê?

Toda hora vinha uma enfermeira trazendo você para mamar e ficar ao meu lado e ao contrário dos outros dois bebês, você chorava bastante. Então vinha aquela sensação de que eu estava fazendo algo errado. Na primeira noite, você só parou de chorar quando a coloquei deitada sobre mim, até que chegou uma enfermeira e estragou tudo: te  pegou rapidamente e  falou da loucura daquilo, pois você poderia cair.Deve ter me achado muito perigosa, pois a levou rapidamente ao berçário. Só depois disto dormi um pouco. Fazia um calor desgraçado, mas ninguém ligava o ar condicionado por causa dos bebês.

No outro dia, fiquei sozinha no quarto à noite, pois as outras mães já tinham sido liberadas. Então, comecei a me sentir realmente cansada, não entendia como alguém poderia tentar amamentar com todas aquelas agulhas no braço. Aliás, amamentar é só uma figura de expressão, pois como você sabe, demorou mais de uma semana para o leite aparecer. E você chorava, chorava e eu não sabia o que fazer. Então fui pedir ajuda para uma das enfermeiras. Ela a pegou, colocou na sua boca uma chupeta que eu tinha levado e você se acalmou. Depois que a enfermeira deu as costas, você recomeçou o choro, jogando a chupeta para o lado.

Não preciso nem dizer o quanto eu me senti  inútil, não? Depois de umas 2 horas de tentativas para acalmá-la, novamente pedi ajuda a enfermeira, que viu o meu desespero mortal no rosto e a levou ao berçário. Mas desta vez não dormi: esperei uns 15 minutos e fui te ver pelo vidro.

Então eu vi como foi que a enfermeira “resolveu” o problema: ela te deixou chorando lá, naqueles bercinhos móveis, junto a outros bebês. Você parecia muito sozinha e desamparada sem ninguém ao seu lado e meu mundo ruiu naquele momento. Fiquei te olhando e chorando junto do outro lado do vidro, sem coragem de pedi-la de volta. Naquele momento, tive aquelas epifanias dos contos da Clarice Lispector: descobri que ser mãe envolvia assumir toda a responsabilidade, culpa e acertos na criação de uma criança e que ninguém poderia fazer isto por mim, pois ninguém, Beatriz, poderia amá-la mais que eu. Só sai do outro lado do vidro quando você finalmente dormiu. Consegui dormir umas duas  horas e quando acordei, não via a hora de trazerem você novamente ao quarto. Aos trancos e barrancos, com choro ou sem, queria dali para frente jamais perdê-la de vista.

Isto pode parecer apenas um relato comum de mãe novata, e por isso,  talvez não merecesse um mistério tão grande assim. Tudo bem. Só não consigo entender  o tamanho da dor e da culpa que ainda carrego por tê-la deixado sozinha naquela noite  E acredite, minha filha: fiz e continuarei fazendo o impossível para que isto nunca mais ocorra.

Amo você. Parabéns pelo seu aniversário, minha linda!

Sua mãe.

7 comentários:

  1. procurei os contos que vc me indicou, e em breve irei lê-los :D
    parabééns para sua filha, que venham muitos e muitos anos felizes para ela e para vc :)

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  2. li angústia, e é belissimo! obrigada por ter me apresentado a este autor :)

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  3. Tcheckov é maravilhoso, Isabel! Eu já tenho reservado desde agora um exemplar de contos para Beatriz ler quando crescer!

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  4. Parabéns atrasado para a pequena, Josiane!!
    Parabéns a você e ao papai dessa delícia de menininha que é a Beatriz!!
    Beijinhos

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  5. Outro Lais! Bom revê-la por aqui novamente!

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  6. Nossa josi.... To aqui me debulhando em lagrimas...

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    1. Eu choro toda vez que me lembro. É duro admitir, mas eu ainda não estava pronta pra ser mãe naquela época...e ainda estou aprendendo.
      E o running mammy? Vc bem que podia continuar escrevendo sobre as dificuldades que é correr e ser mãe de bebê pequena. Não é nada fácil, não?
      Bjs!

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